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Chove muito e a roupa no estendal está toda molhada
aconchego-me no calor de uma hesitação empírica
depois vou até aos correios olhar estupidamente para os guichés
volto não menos estupidamente para casa sem nada para olhar
e escrevo cartas atrasadas com os melhores cumprimentos
menos aquela em que te falaria da adequação dos corpos
solitários e da espera sem necessidade de feridas ou sofrimento
e da difícil aprendizagem nos dias chuvosos como o de hoje
seria uma carta sem intervalos nas palavras nem desculpas
seria uma carta breve sobre a arte de perceber o sim e o não
e seria lacrada com a marca dos meus lábios
mas agora o que fazer das nuvens que se rasgam em chuva?


Carlos Alberto Machado
Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite


Carlos Alberto Machado
Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso em particular a mão direita o crânio o sexo o coração oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços é que não sei onde guardei as instruções de montagem.


Carlos Alberto Machado