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é como acordar.

mas aquilo que flúi quando acordas,
aquilo que te liga os dias donde vens
aos dias a que queres chegar,
aquela abundância de razão e de consciência
que te dá sentido à vida...

esse movimento está ausente
e sentes-te como um fumo.

qualquer coisa te pode esmagar,
qualquer gesto te pode transportar
a um chão que não existe,
a um caminho
que os teus passos não sabem percorrer.

e as tuas mãos ficam húmidas desse delírio.
e os olhos caem-te aflitos no lugar da doçura ausente.

e ficas sem gritar,
ergues-te sobre esse dia que chega
e tudo é maior do que possas ter para te agarrar.
e deixas-te ir, etéreo como um fumo…

podia ser esse o minuto da loucura.
podia ser esse o momento de abraçar a luz
e estalar docemente numa noite qualquer.

como uma fenda de fogo,
como um punhal de lume
que enfim te rasgasse o mundo.


gil t. sousa
o tempo é uma armadilha
na forma daqueles
que mais amamos.


gil t. sousa
quando a maré se afasta
é possível escrever tudo

outra vez


gil t. sousa
foi tudo nesse horizonte afogado. a mesa vazia, o piano calado, o pássaro imóvel. virás por muitos anos, como a espuma dos sonhos perdidos. e a raiva será cantada no paredão da memória até ficarem macias as pedras do caminho.

e será esse o teu Inverno.


gil t. sousa
vi cair a cal
nas paredes
cegas


pouco antes
do relógio dos incêndios
atear a tua hora


gil t. sousa
quem se importa se não vens pela estrada, ou se o teu nome é muito longe como a sombra? hoje abri as mãos enquanto o sul me fugia em pássaros sob a lua. há árvores tão lentas neste Inverno e passos mudos, água nos caminhos do espelho.


e tu não estás, não estás lentamente, nem sobre os telhados vermelhos, nem ao longe como o forte querer que a neve caia e tudo apague como se apagava o mundo quando docemente um beijo nos explodia no meio da solidão.


gil t. sousa
de ti
receberia o chão que me faltava

e dava-te,
punha-te janelas no coração

como pudemos ter falhado?


gil t. sousa
o soar
da última neve
aos pés
da rainha negra

retratos
são pedaços de abismo
ou restos
de chão firme

já não há mais nada
nem nos livros
nem nas horas
nem nas vozes

está tudo a arder
como se mais nenhuma paisagem
coubesse
na varanda dos meus olhos


gil t. sousa
amei com palavras grandes
e secretas

amei com versos limpos


gil t sousa
porque a loucura
deve ser rasgada por dentro
com as mãos cravadas numa ponte
acesa ao abismo


gil t. sousa
e vinha a luz.
e guardava-te

e eu guardava-te
também

em lugares mais seguros
que fotografias
ou poemas


gil t. sousa